RENATO
ROCHA
A FLOR MAL-HUMORADA
Era uma vez uma flor
Que estava de mau-humor
Só porque estava num vaso
E era um pequenino vaso.
“Como é que eu posso viver
Num vaso pequeno assim?
Será que ninguém me vê?
Ninguém tem pena de mim?
Assim não posso crescer,
Eu quero ir pro jardim.”
O vaso ouvia calado
Fingindo não fazer caso.
Ele sabia que as flores
Duravam menos que os vasos…
De repente, por acaso,
Numa longa pirueta,
Entrou uma borboleta
E sem querer criou um caso,
Pousando em cima da flor
Que estava em cima do vaso.
Amarela branca e preta,
A borboleta era linda,
Mas a flor que era vermelha
Ficou mais vermelha ainda.
“Sai de cima de mim,
Já estou cheia de problemas!
Sai de cima de mim!
Será que ninguém tem pena?”
A borboleta, assustada,
Voou e pousou no chão.
Aí, foi então que o vaso
Começou a discussão:
“Sai de cima de mim,
Sua mal agradecida!
Tratando tão mal assim
Uma borboleta linda.
Vai, sai de cima de mim,
Sua mal agradecida!”
A flor ia responder,
Mas não teve tempo, não.
A mesa, batendo o pé,
Aumentou a discussão:
“Como falam vocês dois!
Que florzinha mais vaidosa!
E esse vaso, ora, pois pois,
Tanto peso me desgosta.
Saiam já, todos os dois
De cima das minhas costas!”
“Eu não peso quase nada,
Sou um vaso bem pequeno.”
”É mesmo, ele é bem pequeno,
Mas pesa uma tonelada”
“É mentira, isso é veneno
Dessa flor mal-humorada”
“A flor é que pesa menos,
Sou eu que não peso nada.”
A mesa, batendo um pé,
Ficou contando até dez:
“1 2 3 4 5 6 7 8 9 e ”…
Então notou que seus pés
Estavam em cima do chão,
Que estava em cima da terra,
Que rodava em cima de nada,
E que ficou como estava:
Ficou calada.
E o silêncio da terra
Teve tamanha beleza
Que, atravessando o chão,
Subiu pelos pés da mesa,
Passou pelo vaso e então
Foi chegando até a flor,
Que foi ficando mais calma.
E foi em silêncio e calma
Que a borboleta voou
E calmamente pousou.