RENATO
ROCHA
FANZOCA
Ele em missão em Sumatra
No gelo do Alasca
E tão belo na tela
E ela, entre os seus retratos
Abraça o lençol.
Ele em cada jornal.
Cheio de rouge e de talco
Ele surge no palco
Ele beija a donzela
E ela, na última fila
Mastiga um bombom
Ele em cada canção.
E ela cola os ouvidos
Na boca do rádio
Seus olhos no vídeo
Seus lábios, sem beijo.
Ela aplica um batom.
Roendo as unhas, o esmalte
Ela o vê quase à morte
Na página quinze
E nela a mocinha visita
O herói no hospital.
Ele em cada postal.
E entre o novelo e a novela
O relógio, ela espera:
Verão, primavera…
Espera: no ano que vem
Ele vem ao Brasil.
Ela agora dormiu.
E os mil retratos
Nas quatro paredes do quarto
São dúzias de deuses
De dentes de neve
De peito de bronze
Cabelos de ouro
Já fora de moda
Descidos da tela
E agora é que ela
Acordou sem ninguém.
Se guardou pra ninguém.