RENATO
ROCHA
FORMIGA NO VIOLÃO (A EXECUÇÃO)
Ao terceiro sinal, entro
Segurando o violão
Ajeito o banquinho, sento
E aceno uma saudação.
O público aplaude,e então
Fica em silêncio e atento
À minha apresentação.
Enquanto ajeito o instrumento
Confiro a afinação
Mentalizo o compasso
E começo a execução.
Mas logo sinto no braço
Por dentro do paletó
Na ponta do cotovelo
Uma ‘cosquinha’ nos pelos
Que dura um tiquinho só
E acaba, por um momento
No meio da introdução.
Quase que me desconcentro
Mas mantenho a precisão
Dedilhando pianinho
As cordas do violão.
E, então, devagarinho
Recomeça a sensação:
Uma cosquinha, uma coisa
Nos cabelinhos do pulso
Bem no punho da camisa
Por baixo do paletó.
Que coisa! Ninguém merece...
Parece... tenho a impressão
Que é um bichinho que se mexe
Nas dobras da minha mão.
E então – tão-tão-tão-tão! –
A margarida aparece:
Uma formiga marrom
Uma operária mignon
Provocando esse frisson
Passeando pelos pelos
Fazendo ‘cósca’,a bandida,
Nas costas da minha mão!
Sacudo o pulso de leve
Sem perder o dedilhado.
E se a plateia percebe
Que eu estou desconcertado
Tentando manter a calma
Sentindo a ‘cosca’ passar
Pra unha do polegar
E dele descer pra palma?
E o pior é o contratempo
Pois a cosquinha confusa
Fica andando em semifusa
E eu estou tocando lento.
Uma mínima formiga
Atravessando o enredo
Na minha linha da vida
Na contramão dos meus dedos.
E justo nesta passagem
Em que dedilho esta escala
Ela escala, que horror!,
Os pelos do indicador
E para,enquanto modulo,
Bem na ponta e dá um pulo
De novo em cima da palma.
Não posso perder a calma...
E em zigue-zague e depressa
A formiguinha atravessa
As linhas da minha mão
Na direção do mindinho
O que no caso é até bom
Pois o mindinho direito
Não faz falta nem efeito:
Não entra nunca em ação...
E a formiga, calmamente,
Completamente marrom...
Empina as pernas da frente
E muda de direção
E do mindinho ela vira
Pro seu vizinho do lado
Passando agora por cima
Do meu anel de noivado...
E é então – tão-tão-tão-tão! –
Que ela pula do meu braço
Para o braço do violão
E vai parar logo em baixo
Da raia da corda prima
A mais cortante das seis
Cordas de aço, bem finas,
Esticadas e assassinas.
E lá vem ela, marrom
Em cima do nono traste
Sem fazer nenhum contraste
Com o braço do violão
Vai andando e formigando
Indiferente e sem medo
Vindo bem na direção
Dos acordes dos meus dedos.
E eu fico cheio de dedos
Mas a formiga nem liga.
Pra onde irá esse enredo?
Como sair dessa intriga?
Eu já não posso parar
E a formiga também não.
E ela, então – tão-tão-tão-tão!
Resolve se pendurar...
...Em pleno bordão, caramba!
Correndo risco de morte
Debaixo da corda bamba
Se equilibrando com arte
Em cima do quarto traste
Bem no meio desse arpejo
Tomara que ela se afaste
(Eu penso e quase trastejo).
É impossível evitar
Esmagá-la contra o braço
Ou cortá-la em dois pedaços
Mas também não posso errar.
E ela não está nem aí
Já passou para outro traste
(E no próximo compasso
Eu faço pestana ali).
Mas então – tão-tão-tão-tão! –
Evito a pestana e faço
Uma inversão do acorde,
Num outro lugar do braço.
Mas que estresse! que aflição!
Pois ela desaparece
Entre as seis cordas de aço
E os cinco dedos da mão.
Como não dar atenção
A esta formiguinha tão
Camaleônica, tão
Da mesma cor que o violão?
Inda bem que ela não morde
Se fosse uma daquelas...
Não posso errar o acorde...
Será que acabei com ela?
Será que afinal saiu?
Caiu no chão e sumiu?
Tomara,é melhor assim.
Porque estou chegando ao fim
E vou poder relaxar
E concentrar a atenção
Pra caprichar no final
Dessa minha execução.
Mas, péra aí... Quê que é isso?
Essa cosquinha de leve
Na ponta do pai-de-todos
Passando pra mão esquerda?
É incrível!... ela subiu!
A operária conseguiu!
Atravessou o violão
Na contramão, e subiu!
Chegou aqui, desse lado
Sem uma escoriação
Que bichinho mais danado
Que soberba atuação!
Subiu do pulso pro braço
E enquanto faço esse dó
Ela some lá por baixo
Da manga do paletó.
Nem sinto a cosquinha mais.
Ainda bem que falta pouco
Só os compassos finais...
Eu quase que fiquei louco
Tocando nessa aflição.
Será que alguém faz ideia?
Os aplausos da plateia
Parecem dizer que não.
Foi um concerto arriscado
Por pouco eu me desconcerto.
Eu não toquei bem tocado
Mas não matei o inseto.
Será mesmo que fiz certo
E acertei por ter errado
Ou, na verdade,enganado
Toquei mal por ser correto?