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FORMIGA NO VIOLÃO (A EXECUÇÃO)

Ao terceiro sinal, entro

Segurando o violão

Ajeito o banquinho, sento

E aceno uma saudação.

O público aplaude,e então

Fica em silêncio e atento

À minha apresentação.

Enquanto ajeito o instrumento


Confiro a afinação

Mentalizo o compasso

E começo a execução.

Mas logo sinto no braço

Por dentro do paletó

Na ponta do cotovelo

Uma ‘cosquinha’ nos pelos

Que dura um tiquinho só


E acaba, por um momento

No meio da introdução.

Quase que me desconcentro

Mas mantenho a precisão

Dedilhando pianinho

As cordas do violão.

E, então, devagarinho

Recomeça a sensação:


Uma cosquinha, uma coisa

Nos cabelinhos do pulso

Bem no punho da camisa

Por baixo do paletó.

Que coisa! Ninguém merece...

Parece... tenho a impressão

Que é um bichinho que se mexe

Nas dobras da minha mão.


E então – tão-tão-tão-tão! –

A margarida aparece:

Uma formiga marrom

Uma operária mignon

Provocando esse frisson

Passeando pelos pelos

Fazendo ‘cósca’,a bandida,

Nas costas da minha mão!


Sacudo o pulso de leve

Sem perder o dedilhado.

E se a plateia percebe

Que eu estou desconcertado

Tentando manter a calma

Sentindo a ‘cosca’ passar

Pra unha do polegar

E dele descer pra palma?


E o pior é o contratempo

Pois a cosquinha confusa

Fica andando em semifusa

E eu estou tocando lento.

Uma mínima formiga

Atravessando o enredo

Na minha linha da vida

Na contramão dos meus dedos.


E justo nesta passagem

Em que dedilho esta escala

Ela escala, que horror!,

Os pelos do indicador

E para,enquanto modulo,

Bem na ponta e dá um pulo

De novo em cima da palma.

Não posso perder a calma...


E em zigue-zague e depressa

A formiguinha atravessa

As linhas da minha mão

Na direção do mindinho

O que no caso é até bom

Pois o mindinho direito

Não faz falta nem efeito:

Não entra nunca em ação...


E a formiga, calmamente,

Completamente marrom...

Empina as pernas da frente

E muda de direção

E do mindinho ela vira

Pro seu vizinho do lado

Passando agora por cima

Do meu anel de noivado...


E é então – tão-tão-tão-tão! –

Que ela pula do meu braço

Para o braço do violão

E vai parar logo em baixo

Da raia da corda prima

A mais cortante das seis

Cordas de aço, bem finas,

Esticadas e assassinas.


E lá vem ela, marrom

Em cima do nono traste

Sem fazer nenhum contraste

Com o braço do violão

Vai andando e formigando

Indiferente e sem medo

Vindo bem na direção

Dos acordes dos meus dedos.


E eu fico cheio de dedos

Mas a formiga nem liga.

Pra onde irá esse enredo?

Como sair dessa intriga?

Eu já não posso parar

E a formiga também não.

E ela, então – tão-tão-tão-tão!

Resolve se pendurar...


...Em pleno bordão, caramba!

Correndo risco de morte

Debaixo da corda bamba

Se equilibrando com arte

Em cima do quarto traste

Bem no meio desse arpejo

Tomara que ela se afaste

(Eu penso e quase trastejo).


É impossível evitar

Esmagá-la contra o braço

Ou cortá-la em dois pedaços

Mas também não posso errar.

E ela não está nem aí

Já passou para outro traste

(E no próximo compasso

Eu faço pestana ali).


Mas então – tão-tão-tão-tão! –

Evito a pestana e faço

Uma inversão do acorde,

Num outro lugar do braço.

Mas que estresse! que aflição!

Pois ela desaparece

Entre as seis cordas de aço

E os cinco dedos da mão.


Como não dar atenção

A esta formiguinha tão

Camaleônica, tão

Da mesma cor que o violão?

Inda bem que ela não morde

Se fosse uma daquelas...

Não posso errar o acorde...

Será que acabei com ela?


Será que afinal saiu?

Caiu no chão e sumiu?

Tomara,é melhor assim.

Porque estou chegando ao fim

E vou poder relaxar

E concentrar a atenção

Pra caprichar no final

Dessa minha execução.


Mas, péra aí... Quê que é isso?

Essa cosquinha de leve

Na ponta do pai-de-todos

Passando pra mão esquerda?

É incrível!... ela subiu!

A operária conseguiu!

Atravessou o violão

Na contramão, e subiu!


Chegou aqui, desse lado

Sem uma escoriação

Que bichinho mais danado

Que soberba atuação!

Subiu do pulso pro braço

E enquanto faço esse dó

Ela some lá por baixo

Da manga do paletó.


Nem sinto a cosquinha mais.

Ainda bem que falta pouco

Só os compassos finais...

Eu quase que fiquei louco

Tocando nessa aflição.

Será que alguém faz ideia?

Os aplausos da plateia

Parecem dizer que não.


Foi um concerto arriscado

Por pouco eu me desconcerto.

Eu não toquei bem tocado

Mas não matei o inseto.

Será mesmo que fiz certo

E acertei por ter errado

Ou, na verdade,enganado

Toquei mal por ser correto?

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