RENATO
ROCHA
JOSÉ
Que adianta ficar, fugir
Procurar defeitos.
Na engrenagem dos relógios do peito
Vida inteira voce viajou
Numa estrada morta
E se guiou
Por uma régua torta
Por léguas e léguas
Só chegando aonde
Bem podia ter ido de bonde
E as coisas hoje
Foram bem mais longe do que você.
Se a vida fosse um Chevrolé
Você pedia ao chofer
Prá dar marcha a ré
Mas a vida não é
E agora José?
Você está perdido
Apesar de saber
O nome das ruas
As fases da lua
A rosa dos ventos
Saber o tempo
Que amanhã vai fazer
Num busto de bronze
Um velho de bronze
Olha e não lhe vê
Que adianta ficar, fugir
Para os telefones
Chamar bocas, sons
Inúmeros nomes:
Não há nada que possa tombar
De nenhuma altura
A sala escura
Silenciosa e oca
Sua boca já boca já não tem palavras
Pra quebrar essa mudez
O que talvez
A voz jovem e louca
Sabe quebrar
Se a vida fosse um Chevrolé
Você pedia ao chofer
Prá dar marcha a ré
Mas a vida não é
E agora José?
Você está perdido
Apesar de trazer
A chave no bolso
O dinheiro pro almoço
E ter no pescoço
Um santo, uma figa
Uma coisa de fé
Num templo de gesso
Um santo de gesso
Não ouve você
Se a vida fosse um Chevrolé
Voce pedia ao chofer
Prá dar marcha a ré
Mas a vida não é, e agora José?