RENATO
ROCHA
LOSANGO DE SANGUE (ANTENOR, O IMPERADOR)
O Antenor era um tenor
Amordaçado pelo amor
Da Beatriz, a bela atriz
Que era a triste imperatriz
E o imperador era o Antenor
Atormentado pelo ator
Um barítono, um tal de Ary
Que era o barão, um tubarão
Devorador do coração
Da impetuosa imperatriz
Que diz que adora o imperador
Mas gosta mesmo é do algoz.
E as três personas teatrais
E os três intérpretes reais
Somam triângulos de amor
Criando um losango de dor
Que antagoniza muito mais
O Antenor do que os demais
E funde e confunde o ator
Com o personagem que ele faz.
E o baratina do Antenor
Ao atinar que vai perder
A Beatriz para o barão
Se arma e arma uma armadilha
Atrai os traidores e aí
Pou! pou! pou! – atira no Ary
Mas não são tiros de opereta
Pois não são de pólvora seca
E depois mira em Beatriz
Mas, por um triz, dá para trás
E volve o cano do revólver
Para si próprio e – pou! – dispara.
Vendo no chão sua paixão
A infeliz imperatriz corre
Para o Barão, mas Beatriz
Socorre mesmo é pobre Ary
E,ao perceber que o bangue-bangue
Foi de verdade, e o sangue é sangue
Abre o berreiro, em comoção
Por tão tamanha aberração.
E é só então que o Antenor antena
Todo o teor do teorema
E vê que os ciúmes que abrigou
É que o obrigaram a tal cena:
Tanto o ciúme real, pelo Ari
Como o teatral, pelo Barão.
E ali, finalmente, sua mente
Se ilumina e ele,então, atina
Que o ciúme é quem domina
E dita o rumo das ações
E das paixões dos corações.
E é quando alguém desce a cortina
Sob os aplausos da plateia
Que nem de longe faz ideia
De que a tragédia continuou
Quando a cortina se fechou.
É: a tragédia não acabou
Quando a cortina se fechou.