RENATO
ROCHA
PERFUMES DISCORDANTES
Foi num papo com as papoulas
E as tolas amapolas
Que as amargas margaridas
Num cantinho do canteiro
Conspiraram seus perfumes
Para escravizar os cravos
Os lilases incapazes
E os narcisos indecisos
(E quem mais fosse preciso).
Com o apoio das peônias
E petúnias petulantes
As estúpidas tulipas
E as malignas magnólias
Aplaudiram em delírio
E exigiram o exílio
Dos antúrios e dos lírios
Dos hibiscos e papiros
(E quem mais que fosse preciso).
As violetas violentas
E as rosas horrorosas
As begônias sem vergonha
E as hortênsias ansiosas
Foram muito rigorosas
Para espanto dos antúrios
Amarantos e outras flores
Masculinas do recanto.
E as orquídeas deram a ideia
Em comum com as camélias
De punir também os trevos
Que estavam na plateia
Decretando o degredo
Nos confins dos capinzais
Do trevo que se atrevesse
A ter uma folha a mais.
Açucenas se assustaram
Com a cena que se armou
Alfazemas se enfezaram
Mas nenhuma protestou.
As gardênias se guardaram
E o jardim todo notou
Que a alameda de alamandas
Inteirinha amarelou.
Com medo das flores más
Os ciclamens reclamaram
Copos de leite azedaram
Gerânios não deram mais.
Caíram em crise de pranto
Crisântemos, agapantos
Rododendros, rosmaninhos
Miosótis, manacás...
A tristeza no canteiro
Se espalhou feito capim
Girassóis anoiteceram
Perderam o cheiro os jasmins
Jacintos sentimentais
Desmaiaram pelo chão
E os dentes de leão
Não sorriram nunca mais.
(Não sorriram nunca mais).