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PERFUMES DISCORDANTES

Foi num papo com as papoulas

E as tolas amapolas

Que as amargas margaridas

Num cantinho do canteiro

Conspiraram seus perfumes

Para escravizar os cravos

Os lilases incapazes

E os narcisos indecisos

(E quem mais fosse preciso).


Com o apoio das peônias

E petúnias petulantes

As estúpidas tulipas

E as malignas magnólias

Aplaudiram em delírio

E exigiram o exílio

Dos antúrios e dos lírios

Dos hibiscos e papiros

(E quem mais que fosse preciso).


As violetas violentas

E as rosas horrorosas

As begônias sem vergonha

E as hortênsias ansiosas

Foram muito rigorosas

Para espanto dos antúrios

Amarantos e outras flores

Masculinas do recanto.


E as orquídeas deram a ideia

Em comum com as camélias

De punir também os trevos

Que estavam na plateia

Decretando o degredo

Nos confins dos capinzais

Do trevo que se atrevesse

A ter uma folha a mais.


Açucenas se assustaram

Com a cena que se armou

Alfazemas se enfezaram

Mas nenhuma protestou.

As gardênias se guardaram

E o jardim todo notou

Que a alameda de alamandas

Inteirinha amarelou.

Com medo das flores más

Os ciclamens reclamaram

Copos de leite azedaram

Gerânios não deram mais.

Caíram em crise de pranto

Crisântemos, agapantos

Rododendros, rosmaninhos

Miosótis, manacás...


A tristeza no canteiro

Se  espalhou feito capim

Girassóis anoiteceram

Perderam o cheiro os jasmins

Jacintos sentimentais

Desmaiaram pelo chão

E os dentes de leão

Não sorriram nunca mais.

(Não sorriram nunca mais).

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