RENATO
ROCHA
ROLETA CONTEMPORÂNEA
Um rosto de gente
Ocidental
Acidentalmente meu
Urbano, paisano
Exposto ao sol
Um contemporâneo teu
Um número, um nome
Um tipo de sangue
Que não se perdeu
Um tique nervoso
Um tico saudoso
Do que não viveu
Um tipo de sorte
Que teve uma infância
Que nunca esqueceu
E essa lembrança
É a flor que vingou
Quando o lodo fedeu
Chamo de lodo fedido
Ao fedor desses anos
De chumbo e de breu
E se me engano
Corrija quem for
Mais poeta que eu:
Um espectador
Um que sobreviveu
Um contemporâneo teu.
*Canção feita em 1986, inédita em disco. Ficou na gaveta desde então porque, após o fim da ditadura, as pessoas estavam tão cansadas do tema que preferiam não tocar mais no assunto, nem ouvir canções a respeito. Acho que só voltei a lembrar dela quando aquele inacreditável editorial da Folha de São Paulo teve a sem-gracice de chamar de 'ditabranda' a ditadura que matou e torturou tantos conhecidos e desconhecidos, instaurou a censura (não podíamos ver os filmes que o resto do mundo via, nem ler os livros e notícias que o resto do mundo lia), asfixiou a justiça e por longos 21 anos estreitou obtusamente os horizontes existenciais de todos nós. Nunca pensei que após aquele editorial iria testemunhar uma escalada para o que estamos vivendo hoje. Se a FSP, há dez anos, negava a dureza da ditadura, agora, os entusiastas dela estão "cheios de ardor apaixonado" e negam até mesmo que a dita cuja tenha de fato existido.
Sendo assim, estou, 35 anos depois e já na quase total ausência de contemporâneos, tirando da gaveta uma canção feita pelo brasileiro que eu também já fui, que acabara de atravessar, justo na idade das grandes realizações, o fedor do obscurantismo daquelas arrastadas décadas de chumbo e breu. Ditadura nunca mais, meu chapa!