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ROLETA CONTEMPORÂNEA

Um rosto de gente

Ocidental

Acidentalmente meu

Urbano, paisano

Exposto ao sol

Um contemporâneo teu


Um número, um nome

Um tipo de sangue

Que não se perdeu

Um tique nervoso

Um tico saudoso

Do que não viveu

Um tipo de sorte

Que teve uma infância

Que nunca esqueceu

E essa lembrança

É a flor que vingou

Quando o lodo fedeu

Chamo de lodo fedido

Ao fedor desses anos

De chumbo e de breu


E se me engano

Corrija quem for

Mais poeta que eu:

Um espectador

Um que sobreviveu

Um contemporâneo teu.


*Canção feita em 1986, inédita em disco. Ficou na gaveta desde então porque, após o fim da ditadura, as pessoas estavam tão cansadas do tema que  preferiam não tocar mais no assunto, nem ouvir canções a respeito. Acho que só voltei a lembrar dela quando aquele inacreditável editorial da Folha de São Paulo teve a sem-gracice de chamar de 'ditabranda' a  ditadura que matou e torturou tantos conhecidos e desconhecidos,  instaurou a censura (não podíamos ver os filmes que o resto do mundo  via, nem ler os livros e notícias que o resto do mundo lia), asfixiou a  justiça e por longos 21 anos estreitou obtusamente os horizontes  existenciais de todos nós. Nunca pensei que após aquele editorial iria  testemunhar uma escalada para o que estamos vivendo hoje. Se a FSP, há  dez anos, negava a dureza da ditadura, agora, os entusiastas dela estão "cheios de ardor apaixonado" e negam até mesmo que a dita cuja tenha de fato existido.


Sendo  assim, estou, 35 anos depois e já na quase total ausência de contemporâneos, tirando da gaveta uma canção feita pelo brasileiro que eu também já fui, que acabara de atravessar, justo na idade das grandes realizações, o fedor do obscurantismo daquelas arrastadas décadas de chumbo e breu. Ditadura nunca mais, meu chapa!

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