RENATO
ROCHA
LISTA DE PREFERÊNCIAS
(Poesia de Bertold Brecht e tradução de Paulo Cesar Souza)
Alegrias,
as desmedidas.
Dores,
as não curtidas.
Casos,
os inconcebíveis.
Conselhos,
os inexequíveis.
Meninas,
as veras.
Mulheres,
insinceras.
Orgasmos,
os múltiplos.
Ódios,
os mútuos.
Domicílios,
os passageiros.
Adeuses,
os bem ligeiros.
Artes,
as não rentáveis.
Professores,
os incansáveis.
Prazeres,
os transparentes.
Projetos,
os contingentes.
Inimigos,
os delicados.
Amigos,
os estouvados.
Cores,
o rubro.
Meses,
outubro.
Elementos,
os fogos.
Divindades,
o logos.
Vidas,
as espontâneas.
Mortes,
as instantâneas.
Os mais atentos terão reparado que, no verso sobre os professores, em vez de 'enterráveis' estou cantando 'incansáveis'. Concordo que a palavra escolhida pelo tradutor é mais impactante e fiel ao original, e que seu emprego pode ser defendido pelo caráter irônico do verso, que também, por sua vez, não deixa de ser professoral –assim como o poema pode ser visto como uma lista de conselhos exequíveis. Mas creio que o próprio Brecht – que escreveu o texto nos anos 1920, quando o ensino pregava o respeito absoluto à autoridade e visava, basicamente, conformar o aluno ao mercado de trabalho – também faria a substituição, hoje, caso vivesse num pais alérgico à educação, no qual seus incansáveis professores são um dos principais vetores da transformação.
Em tempo: acho que o Kurt Weill também aprovaria.